Mercado de Alimentos

China retoma compra de frango do RS

A retomada das compras de frango do Rio Grande do Sul pela China traz alívio ao setor, mas revela impactos silenciosos do embargo sobre estocagem, energia e cadeia do frio.

O anúncio do fim do embargo chinês à carne de frango do Rio Grande do Sul encerra um período de mais de um ano de restrições iniciado após a detecção da doença de Newcastle. A decisão da China, principal destino da proteína avícola brasileira, foi recebida como um alívio comercial imediato. No entanto, para além da retomada das exportações, o episódio deixa lições importantes sobre os efeitos operacionais que eventos sanitários podem gerar ao longo da cadeia do frio.

Durante o período de embargo, parte significativa da produção precisou ser redirecionada ao mercado interno ou mantida em estoque por mais tempo do que o planejado. Esse aumento do tempo médio de armazenagem teve reflexos diretos sobre as câmaras frias, que passaram a operar mais próximas de sua capacidade máxima. Isso significa uma maior densidade de produto, menor flexibilidade operacional e sistemas de refrigeração trabalhando de forma contínua por períodos prolongados.

Esse cenário afeta diretamente o consumo de energia. Quanto maior o tempo de estocagem e mais constante a operação dos equipamentos, maior é a demanda energética para manter estabilidade térmica. Em um contexto de tarifas elevadas, o custo invisível do embargo não se limita à perda de receita com exportações, mas se manifesta também na elevação dos custos operacionais, especialmente em unidades menos preparadas para longos ciclos de armazenagem.

Outro ponto crítico é o impacto sobre o controle de qualidade. Estoques mantidos por períodos maiores exigem monitoramento mais rigoroso de temperatura, umidade e rotatividade. Pequenos desvios térmicos, que poderiam ser absorvidos em ciclos mais curtos, tornam-se mais arriscados quando o produto permanece semanas ou meses adicionais em câmaras frias. A pressão sobre processos e equipes aumenta, assim como a necessidade de rastreabilidade precisa.

Embora a queda percentual nas exportações durante o embargo possa parecer limitada quando observada apenas nos números agregados, seus efeitos se espalham de forma desigual pela operação. Unidades exportadoras sentiram mais intensamente o impacto, enquanto ajustes logísticos e comerciais precisaram ser feitos em curto prazo, muitas vezes sem que a infraestrutura estivesse dimensionada para esse novo cenário.

Com a retomada das compras pela China, o setor passa agora por um movimento inverso: liberação de estoques, reativação de fluxos logísticos e reequilíbrio entre mercado interno e externo. Esse processo também exige atenção operacional. A saída acelerada de volumes armazenados demanda coordenação entre produção, armazenagem e transporte refrigerado, além de atenção redobrada para manter a estabilidade térmica até o embarque.

O episódio evidencia como eventos sanitários localizados podem gerar impactos prolongados e sistêmicos na cadeia do frio. Mesmo quando a origem do problema não está diretamente ligada à refrigeração, seus efeitos recaem sobre estocagem, energia, planejamento e risco operacional. Para empresas do setor de alimentos, isso reforça a importância de operar com visibilidade e controle, preparados para cenários de interrupção e retomada.

Nesse contexto, a adoção de práticas de refrigeração inteligente ganha ainda mais relevância. Monitoramento contínuo, análise de desempenho energético e integração entre dados operacionais e comerciais permitem reagir com mais rapidez a mudanças abruptas de mercado. Ter clareza sobre capacidade real, custos por período de estocagem e limites do sistema faz diferença quando o inesperado acontece.

O fim do embargo marca um novo capítulo para o frango gaúcho no comércio internacional, mas também deixa um aprendizado claro. Resiliência na cadeia do frio é não só questão técnica, como também uma estratégia de negócio. Empresas que conseguem atravessar períodos de restrição mantendo controle, eficiência e qualidade saem mais preparadas (não apenas para exportar mais, mas para operar melhor).

Fontes: China encerra embargo e libera importação de carne de frango do RS após mais de um ano - G1 https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/01/20/china-encerra-embargo-e-libera-importacao-de-carne-de-frango-do-rs-apos-mais-de-um-ano.ghtml | Setor celebra retomada da China à carne de frango do Rio Grande do Sul - CNN Brasil https://www.cnnbrasil.com.br/economia/agro/setor-celebra-retomada-da-china-a-carne-de-frango-do-rio-grande-do-sul/

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