
Mercado de Alimentos
A dinâmica da carne bovina brasileira em 2026 exige mais controle dentro das operações frigorificadas
A imposição de cotas, a diversificação de mercados e o aumento da exigência sanitária deslocam o desafio da previsibilidade externa para a eficiência operacional interna.

A decisão da China de estabelecer uma cota anual para a importação de carne bovina brasileira introduziu um novo elemento de incerteza para a indústria frigorífica. Durante anos, o mercado chinês funcionou como principal válvula de escoamento, oferecendo previsibilidade de volume e absorvendo grande parte da produção nacional. Com a mudança, o planejamento industrial passa a operar em um ambiente mais fragmentado e sujeito a ajustes frequentes.
Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária, a China respondeu por mais de 50% das exportações brasileiras de carne bovina em determinados períodos recentes. A imposição de limites quantitativos altera essa dinâmica ao longo do ano, exigindo maior controle sobre ritmo de abate, formação de estoque e destinação dos cortes produzidos. Quando o escoamento externo perde fluidez, a pressão se desloca para dentro da planta industrial.
Um dos efeitos mais imediatos dessa mudança é o aumento do estoque congelado. Produtos que antes seguiam rapidamente para exportação passam a permanecer mais tempo em câmaras frias, elevando o consumo energético, imobilizando capital e exigindo maior rigor no controle operacional. A eficiência da refrigeração deixa de ser apenas um fator de custo e passa a influenciar diretamente a margem do negócio.
Ao mesmo tempo, o cenário abre espaço para alternativas estratégicas. O avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia, ainda que cercado de etapas regulatórias, amplia a perspectiva de acesso a mercados mais exigentes em termos de padrão sanitário, rastreabilidade e consistência de processo. Diferentemente do modelo baseado em volume, esses mercados valorizam cortes de maior valor agregado, nos quais pequenas variações operacionais podem comprometer habilitações e contratos.
Além disso, a habilitação de novas plantas brasileiras para exportação ao Vietnã, confirmada pelo MAPA, reforça a tendência de diversificação de destinos. Embora positiva do ponto de vista comercial, essa ampliação aumenta a complexidade industrial. Atender múltiplos mercados simultaneamente implica operar com diferentes exigências técnicas, protocolos sanitários e critérios de controle térmico.
Nesse contexto, a cadeia do frio assume um papel ainda mais central. Manter estabilidade de temperatura ao longo do armazenamento e da expedição deixa de ser uma condição operacional básica e passa a ser um fator de viabilidade de mercado. Quanto maior a diversidade de destinos, menor a tolerância a desvios, falhas de registro ou inconsistências de processo.
Relatórios da FAO apontam que perdas pós-processamento e falhas de conservação representam parcela significativa do desperdício global de carnes, especialmente em cadeias longas de exportação. No caso brasileiro, onde grande parte da produção percorre milhares de quilômetros até o destino final, o controle térmico contínuo torna-se determinante para preservar qualidade e reduzir riscos comerciais.
Outro ponto que ganha relevância é a previsibilidade interna. Em um cenário de menor estabilidade externa, frigoríficos precisam operar com maior clareza sobre seus próprios limites. Conhecer o comportamento térmico das câmaras, entender o impacto do tempo de estocagem sobre o consumo energético e ajustar parâmetros operacionais com base em dados históricos passam a ser práticas essenciais, não apenas recomendações técnicas.
É nesse ambiente que a eficiência deixa de ser diferencial competitivo e se transforma em requisito básico. Operações que conseguem manter controle preciso sobre temperatura, energia e processos ganham flexibilidade para redirecionar produção, atender novos mercados e proteger margens. Já aquelas que operam com baixa visibilidade interna acabam absorvendo o custo da instabilidade externa.
Na Polus, essa leitura faz parte da abordagem adotada junto a frigoríficos que enfrentam esse cenário de transição. O foco não está em promessas de redução genérica de consumo, mas em oferecer visibilidade contínua sobre o funcionamento das câmaras frias, permitindo decisões mais informadas em momentos de maior pressão operacional.
Com menos previsibilidade fora da planta, a gestão interna se torna o principal fator de equilíbrio. Em um mercado cada vez mais exigente e fragmentado, controlar o que está sob domínio da operação é o que separa adaptação de perda de competitividade.
Fontes
Globo Rural - Impactos da cota chinesa sobre a carne bovina brasileira
CNN Brasil - Acordo Mercosul–União Europeia e efeitos no agronegócio
CNN Brasil - Vietnã habilita novos frigoríficos brasileiros para exportação
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