
Mercado de Alimentos
Exportações de carne bovina e frango iniciam 2026 com volumes elevados e pressão sobre margens
Abrafrigo registra melhor janeiro da série para carne bovina, enquanto frango congelado acumula queda de preços

Janeiro tradicionalmente funciona como termômetro da dinâmica anual do mercado de proteínas. Em 2026, o indicador abriu em nível elevado para a carne bovina. Dados divulgados pela Abrafrigo apontam crescimento de 16,4% no volume exportado em relação ao mesmo mês do ano anterior, desempenho que o Globo Rural classificou como o melhor janeiro da série histórica. O dado consolida uma tendência que já vinha se desenhando no segundo semestre passado: forte tração do mercado externo absorvendo parte relevante da produção brasileira.
Em paralelo, outro movimento chamou atenção. Reportagem da CNN Brasil mostrou que o preço do frango congelado caiu pelo terceiro mês consecutivo. Trata-se de um sinal distinto dentro do mesmo complexo de proteínas: enquanto a bovinocultura inicia o ano com demanda externa robusta, a cadeia avícola enfrenta um ambiente de preços mais comprimidos no mercado doméstico.
O contraste entre volume aquecido na carne bovina e pressão de preço no frango ajuda a entender o tipo de tensão operacional que pode se formar nas plantas frigorificadas ao longo do trimestre. Exportar mais proteína bovina significa, na prática, maior utilização de câmaras frias, mais giros de estoque, maior permanência de contêineres refrigerados em pátio e necessidade de sincronização fina entre abate, desossa, estocagem e embarque. A operação térmica deixa de ser coadjuvante e passa a ser variável crítica de margem.
No caso da carne bovina, o crescimento de 16,4% no volume exportado em janeiro indica fluxo intenso logo no primeiro mês do ano. Janeiro costuma concentrar ajustes de contratos e recomposição de estoques internacionais após as festas de fim de ano. Quando o mês já começa em patamar recorde, a infraestrutura frigorificada opera sob maior exigência desde o início do calendário. Isso envolve carga térmica elevada, ciclos mais frequentes de abertura de portas, maior movimentação interna e necessidade de estabilidade nas temperaturas de armazenagem e túnel.
A expansão de volume não se converte automaticamente em melhor resultado financeiro. O custo energético das plantas frigoríficas é proporcional ao regime de operação. Compressão, condensação, ventilação forçada e sistemas de degelo trabalham mais quando o giro acelera. Se o consumo não é monitorado por setor, por turno e por tipo de produto armazenado, parte da margem adicional pode ser absorvida por ineficiência invisível. Crescimento sem controle técnico amplia risco operacional.
Já o cenário do frango congelado aponta para outra pressão. Três meses consecutivos de queda de preço indicam oferta relativamente confortável ou demanda doméstica menos aquecida. Para a indústria avícola, margens mais estreitas exigem disciplina ainda maior sobre custos fixos e variáveis. Energia elétrica e refrigeração figuram entre os principais itens da estrutura de despesa. Quando o preço de venda recua, qualquer desvio térmico, perda de rendimento por descongelamento inadequado ou falha de controle representa impacto direto no caixa.
Há também diferença relevante na lógica de armazenagem. O frango congelado trabalha com volumes elevados e ticket médio inferior por quilo em comparação à carne bovina. Isso significa que o custo de estocar cada tonelada, proporcionalmente, pesa mais no resultado. Em períodos de preço pressionado, alongar prazo de estocagem esperando reação de mercado pode comprometer ainda mais o equilíbrio financeiro, especialmente se a eficiência energética da câmara não estiver otimizada.
Do ponto de vista logístico, janeiro forte nas exportações de carne bovina pressiona a malha de transporte refrigerado. Mais contêineres demandados, maior ocupação de slots portuários e necessidade de sincronização entre frigorífico e terminal. A cadeia do frio não admite improviso. Oscilações de temperatura durante transbordo, atrasos na liberação documental ou falhas na alimentação elétrica dos contêineres em pátio geram perdas que não aparecem imediatamente no balanço, mas corroem credibilidade comercial.
Outro ponto pouco discutido é a interação entre as duas cadeias dentro de grupos multiproteína. Muitas empresas operam plantas bovinas e avícolas sob o mesmo guarda-chuva corporativo. Um ambiente de exportação aquecido para bovinos pode mascarar fragilidades na operação avícola. Se a gestão não segmenta indicadores de consumo energético, eficiência térmica e giro de estoque por unidade produtiva, decisões acabam sendo tomadas com base em médias consolidadas que escondem gargalos específicos.
O início de 2026, após o período de carnaval, marca a consolidação do ritmo anual. O melhor janeiro da série para carne bovina cria expectativa elevada para os meses seguintes, mas também exige preparo estrutural. Equipamentos de refrigeração submetidos a carga máxima contínua demandam manutenção preventiva rigorosa. Compressores operando próximos ao limite nominal por longos períodos elevam probabilidade de falha. Planejamento técnico reduz paradas inesperadas justamente quando o mercado está disposto a comprar.
No caso do frango, a sequência de quedas de preço acende alerta sobre estratégia comercial e eficiência operacional. Em ambientes de margem estreita, gestão energética passa de diferencial competitivo a requisito de sobrevivência. Medição granular de consumo, controle de setpoints compatíveis com cada produto e revisão de isolamento térmico deixam de ser pauta secundária. São medidas que impactam diretamente o custo por quilo armazenado.
Os dados de janeiro mostram que o setor de proteínas começa o ano em duas velocidades. Carne bovina com tração externa relevante e frango enfrentando ajuste de preços internos. Ambos os movimentos convergem para o mesmo ponto: pressão sobre a operação frigorificada. Volume elevado amplia complexidade; preço comprimido reduz tolerância a desperdícios.
O mercado costuma reagir aos números de exportação e às variações de preço com foco imediato em receita. No entanto, a estabilidade operacional é o que sustenta resultado ao longo do ano. Se a sua planta fosse auditada hoje quanto a consumo específico de energia por tonelada armazenada, variação térmica por câmara e índice de perda por desvio de temperatura, os números confirmariam eficiência ou revelariam custos ocultos?
Janeiro deixou um recado claro. O ambiente externo pode estar favorável para alguns segmentos e desafiador para outros, mas a disciplina técnica na cadeia do frio segue sendo determinante. Crescer volume é positivo. Manter estabilidade térmica e controle de custos é o que transforma volume em resultado consistente.
Fontes: InfoMoney - https://www.infomoney.com.br/economia/volume-de-exportacao-de-carne-do-brasil-cresce-164-em-janeiro-diz-abrafrigo/ | Globo Rural - https://globorural.globo.com/pecuaria/boi/noticia/2026/02/exportacao-de-carne-bovina-tem-o-melhor-mes-de-janeiro-da-historia.ghtml | CNN Brasil - https://www.cnnbrasil.com.br/agro/preco-do-frango-congelado-cai-pelo-terceiro-mes-consecutivo/
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