
Refrigeração
O que a COP30 realmente mudou para a refrigeração industrial e a cadeia do frio no Brasil
Os acordos firmados em Belém redesenham exigências para eficiência, energia e estabilidade térmica na próxima década.

A COP30, realizada em Belém, consolidou decisões que alcançam diretamente setores de alta demanda energética, especialmente a refrigeração industrial e a cadeia do frio. Embora parte das expectativas globais sobre combustíveis fósseis não tenha avançado, o Belém Package formalizou diretrizes que impactam a operação de frigoríficos, centros de distribuição, indústrias alimentícias, farmacêuticas e serviços logísticos que dependem de estabilidade térmica.
O encontro não trouxe regras específicas para refrigeração, mas fortaleceu temas que já vinham ganhando força no setor: eficiência, transição para refrigerantes de menor impacto climático, qualidade de monitoramento e maior rigor regulatório para emissões indiretas. Na prática, a COP30 não redesenha o setor, mas cria um ambiente onde provas de eficiência e estabilidade passam a ser tão importantes quanto desempenho financeiro.
Um novo ciclo pós-Global Stocktake
O Belém Package é a resposta diplomática ao diagnóstico do primeiro Global Stocktake. O relatório do GST confirmou que o planeta está distante da trajetória de 1,5 °C e que reduções de 43% até 2030 e 60% até 2035 seriam necessárias para corrigir o rumo. A COP30 levou esse diagnóstico para o plano operacional, orientando políticas de curto e médio prazo.
Para quem trabalha com refrigeração industrial, isso importa muito. O GST reforçou duas frentes que moldam diretamente sistemas de frio: acelerar eficiência energética e reduzir gases de alto potencial de aquecimento global. São temas que atravessam qualquer operação térmica relevante no Brasil.
Apesar da ausência de um compromisso global obrigatório para eliminação dos combustíveis fósseis, a decisão final pressiona países a avançarem para sistemas energéticos de baixa emissão até 2030. Em operações refrigeradas, onde o consumo elétrico é crítico, esse movimento exige previsibilidade, parâmetros afinados e redução de desperdícios que elevam custos.
Os compromissos do Brasil e seus efeitos sobre o frio industrial
O Brasil reafirmou em Belém sua NDC, com meta de reduzir 53% das emissões até 2030 em relação a 2005. Essa diretriz reforça o peso de setores considerados críticos para segurança alimentar e sanitária, o que inclui ambientes refrigerados.
A COP30 também destacou a integração entre clima, agricultura e logística. Na prática, cadeias que movimentam alimentos, fármacos e biotecnologia passam a ter maior exigência de rastreamento térmico e comprovação de eficiência energética, alinhando o país às exigências de mercados internacionais.
A Emenda de Kigali, já ratificada pelo Brasil, ganha impulso pós-COP30. A eliminação gradual de HFCs deixa de ser uma transição lenta e passa a pressionar operações que ainda dependem de fluidos de GWP elevado. Manutenção precisa, controle rigoroso de vazamentos e planejamento de retrofit tornam-se pontos de risco e oportunidade.
Energia, resiliência e custos operacionais
O Belém Package reforça que medidas de alto impacto e boa relação custo-benefício devem ser priorizadas. Eficiência energética aparece como uma dessas frentes e incide diretamente sobre sistemas de refrigeração, que compõem parcelas expressivas do consumo elétrico industrial no Brasil.
Outro ponto chave do acordo é a resiliência climática. Com eventos extremos mais frequentes, cresce a pressão para que câmaras frias e centros de distribuição comprovem capacidade de manter estabilidade térmica mesmo sob oscilações de rede ou ondas de calor prolongadas.
A rastreabilidade térmica assume novo papel. Não basta registrar valores, é preciso demonstrar consistência, padrões de operação e capacidade de resposta a desvios. Isso reduz risco operacional e, cada vez mais, risco regulatório.
Financiamento climático abre espaço para eficiência
O avanço do financiamento climático na COP30, especialmente por meio da estruturação de novos mecanismos de adaptação, cria oportunidade para projetos industriais que comprovem redução de consumo e emissões indiretas. A refrigeração industrial se encaixa precisamente nesse ponto, já que eficiência térmica é uma ação mensurável que gera impacto imediato.
Linhas brasileiras de crédito voltadas à modernização energética têm maior probabilidade de integração com fundos internacionais após Belém, ampliando o espaço para projetos que envolvem automatização, retrofit e monitoramento avançado.
A cadeia do frio no centro das metas de estabilidade
A COP30 reforçou uma visão já evidente: clima, energia e segurança alimentar formam um único sistema. No Brasil, essa conexão é ainda mais visível. A dependência estrutural de ambientes refrigerados torna o setor parte essencial da adaptação climática nas próximas décadas.
E isso altera a forma como as empresas precisam operar. Ambientes que já trabalham no limite térmico ou que apresentam variações fora de faixa tornam-se vulneráveis em um cenário de fiscalização crescente. A busca por operações estáveis e ajustadas não é mais apenas uma boa prática, mas uma exigência formal de continuidade.
Nesse contexto, tecnologias capazes de antecipar falhas, ajustar regimes de operação e gerar visibilidade detalhada passam a ser elementos centrais para resiliência. Monitoramento contínuo, análises de desempenho e relatórios automáticos ajudam a transformar a cadeia do frio em infraestrutura previsível e alinhada ao novo ciclo climático.
Para onde vamos agora
A COP30 não criou obrigações inéditas para o setor de refrigeração, mas consolidou um ambiente regulatório onde estabilidade térmica, eficiência e comprovação de desempenho ganham peso estratégico. Para as empresas, o desafio está em transformar esse cenário em vantagem competitiva, reduzindo riscos e elevando a confiabilidade de suas operações.
No limite, a pergunta que fica é simples. Em um mundo que exige previsibilidade, como cada operação refrigerada pretende se posicionar na próxima década?
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