
Mercado de Alimentos
O avanço do Acordo UE–Mercosul e o desafio de atender ao padrão europeu
O Acordo da União Europeia com o Mercosul abre oportunidades para o agro brasileiro, mas exige padrão europeu, controle térmico rigoroso e constância operacional na cadeia do frio.

Após quase 26 anos de negociações, o avanço do acordo entre a União Europeia e o Mercosul reposiciona o Brasil no comércio internacional de alimentos. A redução gradual de tarifas para produtos como carne bovina, frango, frutas, peixes e crustáceos amplia o acesso a um dos mercados mais exigentes do mundo. No entanto, mais acesso não significa aumento automático de volume. Significa, sobretudo, maior exigência operacional.
O mercado europeu privilegia constância. Não basta apenas atender um padrão técnico de forma pontual, passa a ser preciso demonstrar capacidade de manter qualidade, rastreabilidade e estabilidade térmica ao longo de toda a cadeia. Para empresas que operam com alimentos refrigerados ou congelados, isso coloca a cadeia do frio no centro da estratégia de exportação.
A União Europeia possui critérios rigorosos relacionados à segurança alimentar, sustentabilidade e controle sanitário. Isso inclui documentação detalhada, rastreabilidade completa do produto e garantia de que a temperatura foi mantida dentro dos parâmetros especificados desde a produção até o desembarque. Nesse cenário, qualquer oscilação térmica pode significar questionamentos, retenções ou até perda de contratos.
O acordo representa, portanto, uma oportunidade seletiva. Ele favorece quem já opera com previsibilidade e controle. Empresas que dependem de ajustes improvisados ou que operam próximas ao limite de capacidade tendem a enfrentar maiores dificuldades para atender às exigências europeias de forma consistente.
Do ponto de vista operacional, exportar para a Europa exige olhar integrado sobre produção, armazenagem e transporte refrigerado. Fica mais evidente do que nunca que a estabilidade térmica não começa no contêiner, ela começa na planta industrial, passa pelas câmaras frias, pelo carregamento e segue até o destino final. Cada elo precisa estar alinhado.
A gestão energética também ganha protagonismo. O mercado europeu valoriza fornecedores que demonstram compromisso com eficiência e redução de emissões. Sistemas de refrigeração que operam com alto consumo, sem monitoramento detalhado ou com perdas térmicas frequentes, impactam não apenas o custo, mas a imagem da empresa perante compradores internacionais.
Além disso, a previsibilidade é um diferencial competitivo. A Europa tende a priorizar parceiros capazes de garantir entregas regulares, sem oscilações bruscas de qualidade ou atrasos. Isso exige planejamento de capacidade, manutenção preventiva rigorosa e acompanhamento constante de indicadores operacionais.
Em um cenário de abertura comercial, a concorrência também aumenta. Outros países do Mercosul e fornecedores globais disputam o mesmo espaço. A diferença, muitas vezes, estará na capacidade de demonstrar controle técnico. Relatórios de monitoramento contínuo, sistemas automatizados de registro de temperatura e integração de dados ao longo da cadeia tornam-se ferramentas estratégicas.
O acordo também amplia a exposição do setor brasileiro a auditorias e avaliações internacionais. Estar preparado para inspeções, apresentar dados confiáveis e comprovar estabilidade operacional passa a ser parte da rotina de quem deseja consolidar presença no mercado europeu.
Sob essa perspectiva, o avanço do Acordo UE–Mercosul não deve ser visto apenas como expansão comercial, mas como um catalisador de maturidade operacional. Ele incentiva investimentos em infraestrutura, modernização de sistemas de refrigeração e adoção de práticas de refrigeração inteligente, baseadas em medição contínua, análise de desempenho e tomada de decisão orientada por dados.
Para o mercado de alimentos, a mensagem é clara: acesso ampliado exige padrão elevado. Quem já opera com controle térmico consistente, eficiência energética e rastreabilidade estruturada tende a capturar melhor as oportunidades abertas pelo acordo. Quem ainda depende de processos pouco integrados precisará evoluir para competir.
O momento é estratégico. O acordo cria uma janela de oportunidade, mas o aproveitamento dependerá da capacidade de manter constância. No comércio internacional de alimentos, confiança se constrói com previsibilidade. E previsibilidade começa dentro da operação.
Fontes: Como o agro brasileiro deve se beneficiar do acordo UE–Mercosul (G1) https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2026/01/18/como-o-agro-brasileiro-deve-se-beneficiar-do-acordo-ue-mercosul.ghtml | Indústria projeta incremento nas exportações de carne bovina para a UE após acordo (Globo Rural) https://globorural.globo.com/pecuaria/boi/noticia/2026/01/industria-projeta-incremento-de-5percent-a-7percent-nas-exportacoes-de-carne-bovina-para-ue-apos-acordo.ghtml/
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