
Energia
Energia em bandeira verde não significa risco zero para a cadeia do frio
Mesmo com boas condições de geração em janeiro, operações refrigeradas seguem expostas à variabilidade energética ao longo do ano.

A divulgação da bandeira verde para janeiro de 2026 pela Agência Nacional de Energia Elétrica trouxe um sinal positivo para o setor elétrico brasileiro. O anúncio reflete boas condições de geração no curto prazo, especialmente em função do nível dos reservatórios e do equilíbrio momentâneo entre oferta e demanda.
Mas, para operações intensivas em energia, como a cadeia do frio, essa sinalização precisa ser lida com cuidado.
A bandeira verde indica apenas que, naquele mês específico, não haverá cobrança adicional na tarifa. Ela não funciona como previsão e tampouco como garantia de estabilidade ao longo do ano. O próprio sistema de bandeiras da ANEEL é definido mês a mês, com base nas condições observadas naquele período, e pode mudar rapidamente conforme o cenário hidrológico e o comportamento da carga.
Para quem opera câmaras frias, frigoríficos ou centros de distribuição refrigerados, essa distinção é fundamental. O consumo de energia nessas operações é estrutural, contínuo e pouco flexível. Mesmo sem acréscimos tarifários, a energia segue sendo um dos principais componentes do custo operacional.
Além disso, é importante lembrar que a matriz elétrica brasileira, embora majoritariamente renovável, é também sensível a variações climáticas. Regime de chuvas, necessidade de despacho térmico complementar e oscilações sazonais influenciam diretamente as decisões mensais sobre bandeiras tarifárias. Por isso, a leitura de janeiro não pode ser automaticamente estendida para fevereiro, março ou para o restante do ano.
Existe ainda um efeito menos visível, mas bastante comum. A bandeira verde tende a criar uma sensação de conforto operacional. Em muitos casos, ela reduz o senso de urgência no acompanhamento do consumo, como se o risco energético estivesse temporariamente resolvido.
Na prática, isso não acontece.
Mesmo em cenários favoráveis, pequenas ineficiências acumuladas continuam impactando o consumo. Ajustes finos que deixaram de ser feitos, ciclos de operação pouco revisados ou mudanças no comportamento da carga térmica seguem ocorrendo, independentemente da cor da bandeira.
Outro ponto que costuma passar despercebido é que a variabilidade energética não se manifesta apenas na tarifa. Oscilações de tensão, ajustes no despacho do sistema e mudanças na dinâmica da rede podem afetar o desempenho dos equipamentos ao longo do tempo. Quando não há monitoramento contínuo, esses efeitos aparecem apenas quando o consumo já está acima do esperado ou quando a estabilidade térmica começa a se deteriorar.
Por isso, mais importante do que acompanhar a cor da bandeira é entender o próprio histórico de operação. Comparar períodos semelhantes, observar padrões recorrentes e identificar desvios ajuda a separar o que é efeito do sistema elétrico do que é comportamento interno da câmara fria.
Esse tipo de leitura se torna ainda mais relevante quando se considera o calendário oficial de divulgação das bandeiras. As definições são feitas com antecedência limitada, o que exige das operações uma postura menos reativa e mais estruturada ao longo do ano.
No fim das contas, a bandeira verde deve ser vista como um contexto favorável, não como um alívio definitivo. Para a cadeia do frio, o risco energético não desaparece. Ele apenas muda de forma.
Operações mais maduras são aquelas que conseguem atravessar diferentes cenários mantendo previsibilidade, estabilidade térmica e controle do consumo, independentemente da bandeira vigente. E isso não vem de previsões, mas de gestão baseada em dados reais de operação.
Fontes
Agência Nacional de Energia Elétrica – Sistema de Bandeiras Tarifárias
https://www.gov.br/aneel
Agência Nacional de Energia Elétrica – Comunicados oficiais de bandeira
https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias
Empresa de Pesquisa Energética
https://www.epe.gov.br
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