Refrigeração

Armazenagem refrigerada no Brasil enfrenta novo ciclo de pressão energética

Alta demanda e energia cara desafiam a eficiência em câmaras frias no Brasil.

A armazenagem refrigerada no Brasil atravessa um período de pressão simultânea: aumento de demanda por exportações de proteína animal e alimentos processados, expansão do agronegócio e custos crescentes de energia elétrica. A combinação desses fatores desloca o debate da simples capacidade instalada para a eficiência operacional. A discussão agora envolve estabilidade térmica, consumo específico por tonelada armazenada e previsibilidade energética.

O país mantém posição de destaque nas exportações de carnes: segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil figura entre os maiores exportadores globais de carne de frango e suína, com crescimento consistente nos últimos anos impulsionado pela demanda asiática e do Oriente Médio. Esse movimento exige infraestrutura frigorificada capaz de absorver picos sazonais e garantir integridade térmica até o embarque internacional. Cada contêiner carregado representa energia previamente consumida em câmaras frias, túneis de congelamento e centros logísticos.

Ao mesmo tempo, o consumo nacional de energia elétrica segue pressionado. Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam crescimento da demanda elétrica nos setores industrial e de serviços, com tendência de expansão no médio prazo acompanhando atividade econômica e eletrificação de processos. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aponta ainda maior complexidade no despacho energético devido à variabilidade hídrica e ao acionamento de usinas térmicas em momentos críticos. Essa dinâmica impacta diretamente a estrutura tarifária e a previsibilidade de custos para operações que dependem de carga contínua, como a refrigeração industrial.

Em câmaras frias de grande porte, energia é um componente estrutural da operação. Compressores, ventiladores, condensadores e sistemas de degelo operam em regime permanente. Pequenas ineficiências se acumulam ao longo do mês e distorcem o custo por pallet armazenado. Em ambientes com alta rotatividade de mercadoria, variações de abertura de portas e ciclos de carga alteram o balanço térmico e elevam o consumo específico sem que isso seja percebido imediatamente na linha de produção.

Há ainda a questão tarifária. A estrutura brasileira diferencia consumo na ponta e fora de ponta, demanda contratada e encargos setoriais. Uma câmara fria mal ajustada, que opera com picos simultâneos de compressores em horário tarifário elevado, amplia despesas de forma relevante. O impacto não está apenas no quilowatt-hora consumido, mas na curva de carga registrada. Gestão energética passa a envolver análise de perfil horário, coordenação de partidas e integração entre refrigeração e sistema elétrico interno.

Outro vetor de pressão é o crescimento do agronegócio. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra safras recordes sucessivas e aumento da produção de proteínas e alimentos processados. Parte significativa dessa produção exige conservação sob temperatura controlada antes da distribuição. A expansão física de armazéns refrigerados não resolve, por si só, o desafio. Estruturas maiores com controle ineficiente ampliam a exposição a oscilações de custo e risco operacional.

Nesse cenário, a engenharia aplicada assume papel central. O desempenho térmico de uma câmara fria depende de isolamento adequado, controle de infiltração de ar, vedação eficiente e correta especificação de equipamentos. Diferenças de poucos milímetros em portas industriais, falhas em cortinas de ar ou condensadores subdimensionados repercutem em aumento contínuo de carga térmica. A conta aparece no medidor.

A digitalização trouxe instrumentos para lidar com essa complexidade. Sensores distribuídos permitem monitoramento fino de temperatura, umidade e pressão de sucção. Sistemas supervisórios integram dados elétricos e térmicos, facilitando análise de coeficiente de performance (COP) dos compressores ao longo do dia. Com isso, desvios deixam de ser percebidos apenas quando a conta de energia chega. A correção pode ocorrer em tempo real, reduzindo desperdícios acumulados.

Há também o tema da estabilidade operacional. Oscilações frequentes de temperatura não comprometem apenas o consumo energético, mas a qualidade do produto armazenado. Na cadeia do frio, cada variação indevida representa risco de perda parcial de carga, reprocessamento ou descarte. O custo indireto supera a despesa elétrica isolada. Processos estáveis reduzem incerteza e melhoram previsibilidade financeira.

A pressão energética ainda dialoga com sustentabilidade. A matriz elétrica brasileira possui forte participação renovável, mas períodos de escassez hídrica elevam despacho térmico e custos associados. Operações que reduzem consumo específico contribuem não apenas para equilíbrio financeiro, mas para menor intensidade de emissões indiretas. Grandes compradores internacionais observam cada vez mais indicadores ambientais na seleção de fornecedores.

Outro ponto pouco discutido é a qualidade de energia. Fator de potência inadequado, harmônicos e desequilíbrios de fase interferem no desempenho de motores elétricos e compressores. Penalidades por baixo fator de potência elevam a fatura e, em paralelo, perdas internas reduzem eficiência real do sistema frigorífico. Correção técnica, com bancos de capacitores e análise de qualidade de energia, torna-se parte da estratégia de armazenagem.

O novo ciclo de pressão energética não decorre de um único fator. Ele resulta da soma de demanda externa aquecida, expansão produtiva interna e maior complexidade do sistema elétrico. A resposta passa por decisões técnicas consistentes. Dimensionamento correto de demanda contratada, automação bem parametrizada, manutenção preventiva baseada em dados e avaliação contínua de desempenho deixam de ser ações periféricas.

Empresas que tratam energia como variável estratégica tendem a operar com menor volatilidade de custos. Já aquelas que mantêm visão restrita à capacidade física enfrentam dificuldade para absorver oscilações tarifárias e picos de demanda sazonal. A armazenagem refrigerada deixou de ser apenas infraestrutura de apoio. Ela integra o núcleo da competitividade no mercado de alimentos.

O crescimento das exportações e da produção agroindustrial deve manter a pressão sobre a cadeia do frio nos próximos anos. A discussão não gira em torno de expansão indiscriminada de área refrigerada, mas de desempenho técnico. Energia continuará representando parcela significativa do custo operacional. A diferença estará na capacidade de transformar dados elétricos e térmicos em decisões de engenharia. Quem dominar esse controle terá maior previsibilidade e resiliência diante das oscilações do mercado e do sistema elétrico brasileiro.

Fontes: ABPA - https://abpa-br.org/ | Empresa de Pesquisa Energética (EPE) - https://www.epe.gov.br/ | Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) - https://www.ons.org.br/ | IBGE - https://www.ibge.gov.br/

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